IDArq Factor
arquitectura, património e identidade
arquitectura militar
Desde épocas remotas, a defesa do território e sobretudo da urbe sempre se fez através de estruturas edificadas como torres e cercas muralhadas. As torres eram locais estratégicos de vigilância do território que serviam para alertar a aproximação do inimigo, e as muralhas, edificadas em pedra aparelhada, dificultavam a conquista de vilas e cidades. Quanto maior fosse a importância do núcleo urbano, maior era o investimento na sua defesa, e levantaram-se muralhas de grande dimensão na época medieval, não só em altura como em perímetro, que ainda hoje são visíveis e referenciadas como património colectivo. Estas estruturas medievais permanecem muitas vezes como marcas na paisagem, assim como são elementos que determinaram a configuração do desenvolvimento urbano posterior, mesmo que presentemente estejam dissimuladas.
Com a introdução do canhão nos finais da Idade Média, transformando a guerra de curto alcance numa guerra à distância, as muralhas foram rebaixadas aumentando a sua profundidade, e eram agora construídas em terra revestidas de pedra para melhor absorver os projécteis das armas. Essa seria a grande alteração na táctica da guerra a partir de quinhentos aumentando a área militar para além da cintura de muralhas, constituindo um território que seria defendido por uma multiplicação de elementos de defesa. A arquitectura militar “moderna” desenvolve-se sobretudo no início do século XVII, e torna-se complexa e científica baseada na matemática, que irá corresponder à proliferação de tratados seiscentistas que traduziam os princípios da “cidade ideal” renascentista. As fortificações (fortes, fortalezas e muralhas urbanas) integravam-se agora na paisagem e adaptavam-se à topografia, mas ganhavam uma configuração geométrica baseada no desenho do seu traçado. Paralelamente a estas novas cinturas de muralhas foram criadas novas tipologias adequadas ao equipamento militar que constituem igualmente um património.
O desenvolvimento da arquitectura militar “moderna” estendeu-se até ao século XIX, quando a evolução dos conceitos e estratégias militares tornaram dispensáveis estas estruturas. Hoje, as fortificações urbanas também constituem factores de identidade urbana pela interacção que tiveram com o tecido urbano definindo os seus limites durante séculos.
 

(M.V. 2011)
Porta da Fortaleza de Almeida
(Beira Alta, séc. XVII)
Castelo de Almourol
(Ribatejo, séc. XII)
Castelo de Evoramonte
Alentejo, séc. XVI)
Praça-Forte de Neuf-Brisach (França, séc. XVII)


“...A centralidade e o sistema radial foram os conceitos adoptados como estrutura ideal que melhor correspondia aos parâmetros militares de defesa. A racionalidade estava implícita neste modelo e o traçado urbano era eleito como o elemento primordial enfatizando o espaço público. A ordem militar reflectia-se na ordem urbana, por isso o modelo adequava-se a estes parâmetros, onde os ideais humanistas do Renascimento revertiam agora na centralização do poder.
A grande alteração na fortificação seiscentista é que esta não pretendia só defender a cidade mas implicava a defesa de um território alargado, não só na sua área envolvente mas da região. A fortificação passou a ser uma máquina que os habitantes foram obrigados a preservá-la e fazê-la funcionar...”
textos

A Praça-Forte: as fortificações seiscentistas e a configuração do modelo urbano
Valla, Margarida (2010) comunicação apresentada no V CONGRESO INTERNATIONAL SOBRE FORTIFICACIONES - “Las Fortificaciones y la Ciudad”, (Alcalá de Guadaíra, Sevilha)