IDArq Factor
arquitectura, património e identidade







"...men, places, programs are diverse, so why should architectures be all the same? (...) architecture has always been an odd mixture of the regional an the universal..."
Renzo Piano
Num cenário global como é o que hoje se nos apresenta, torna-se pertinente questionar a distinção, que nos habituámos a fazer ao longo da história da arquitectura, e da arte em geral, entre uma arquitectura ocidental de outra que não o é. Observem-se exemplos como o projecto para a Central China TV Headquarters (Pequim) da autoria de Rem Koolhaas (OMA), o mesmo autor da recente Casa da Música na cidade do Porto, ou o projecto de Jean Nouvel para o Grande Teatro Nacional Chinês, também em Pequim, que ao mesmo tempo desenvolve uma mega estrutura habitacional em Lisboa integrada no projecto Alcântara XXI. Entre vários, estes exemplos reforçam a ideia de que a intervenção do arquitecto transporta além fronteiras os desígnios de uma arquitectura que a pouco e pouco se liberta das raízes culturais que têm dado, e ainda dão, identidade aos sítios e às culturas aproximando-se cada vez mais de um contexto internacional, globalizante, que tem como princípio a aproximação dos povos, a hegemonia de uma cultura única dominante e as novas tendências que vêm marcando o mega território planetário, cada vez mais pequeno.
A sociedade de hoje e a cultura contemporânea, medidas a uma escala territorial cada vez mais abrangente, responsabilizam-se por um carácter de elevado pendor tecnológico, onde o efeito do digital e da sociedade de informação, dominada pelo consumo, ressoa impregnado na utilização e na utilidade de novos materiais e de novas tecnologias aliadas a novos sistemas construtivos e conducentes a novas plasticidades e desígnios estéticos. Novos materiais, novas tecnologias, novas formas, novos espaços, novas experiências; o despontar das novas arquitecturas vem associando-se a um novo mundo onde o valor da imagem vai assumindo uma enorme preponderância e onde, poder-se-ia dizer, também vai assumindo principal importância e finalidade, permitindo enquadrar a arquitectura como fenómeno que também não escapa às teias da globalização assumindo-se as suas realizações como novos produtos da sociedade de consumo dominante.
Hoje, focaliza-se como um dos principais princípios dinamizadores da prática arquitectónica corrente a vontade de superar modelos através da criação de novas estruturas marcadas pela exuberância formal e, sobretudo, pela consagração da imagem e pelo consequente apelo aos sentidos. Um novo tipo de arquitectura espectáculo dirigida ao consumo afirma-se como espelho de um mundo em mudança que procura através das novas experiências estéticas o estabelecimento de um novo equilíbrio e de um novo quadro de valores.
Repensar a identidade dos sítios, questionar a sua importância e o seu valor, mostram-se preocupações urgentes e fundamentais. No quadro da nova ordem mundial, onde as actuais crises financeiras e energéticas contrapõem as tendências consumistas e os modelos de vida fundamentados no valor da imagem, da utilidade dos objectos e na perda, ou indiferença, dos significados, importa saber qual a responsabilidade da arquitectura, extensível aos domínios do urbanismo e da salvaguarda patrimonial, e qual o seu possível contributo para estabelecimento de um possível novo equilíbrio.
Porque os objectos arquitectónicos de hoje serão os monumentos do futuro, faz sentido reflectir sobre que testemunho se pretende passar às gerações vindouras e sobre que pressupostos fará sentido alicersar as bases deste novo paradigma dominante.
Da implementação, desenvolvimento e uso, desenfreado, das novas tecnologias, o novo mundo em que se vive vem afirmando-se como um território onde a ideia de fronteira geográfica tem perdido significado e onde a diversidade cultural, por consequência, tem também perdido espaço.
Deverão os elementos e os aspectos caracterizadores da identidade dos territórios, dos povos e das sociedades serem suplantados pela uniformização dos objectos que já não conhecem fronteiras e que são apenas fruto da cultura que lhes é transversal? Ou deverão ser esses aspectos previlegiados, protegidos, e serem antes objecto de processos de manipulação baseados em ideossincrasias provenientes de uma afirmação globalizante?
Mais importante do que gerar objectos iguais, indiferenciados, relativamente, aos sítios e à suas diversidades culturais, seria objectivar e promover modelos e princípios que permitissem salvaguardar a identidade dos lugares e que, ao mesmo tempo, pudessem constituir uma base dinamizadora para a criação de novos artefactos, representativos da modernidade dos tempos, e que se afirmassem como respostas à sustentabilidade desejada.
(V.P. 2009)


Casa da Música (Porto)
OMA - Rem Koolhaas
Central China TV (Pequim)
OMA - Rem Koolhaas
J.M. Tjibaou Cultural Center (Nouméa, N. Caledonia)
Renzo Piano
Casa de Chá da Boa Nova (Leça da Palmeira, Matosinhos)
A. Siza Vieira