IDArq Factor
arquitectura, património e identidade

"...Para fins da presente Convenção serão considerados como património cultural:
I - Os monumentos. - As obras arquitectónicas, de escultura ou de pintura monumentais, elementos de estruturas de carácter arqueológico, inscrições, grutas e grupos de elementos com valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;
II - Os conjuntos. - Os grupos de construções isoladas ou reunidos que, em virtude da sua arquitectura, unidade ou integração na paisagem têm valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;
III - Os locais de interesse. - As obras do homem, ou obras conjugadas do homem e da natureza, e as zonas, incluindo os locais de interesse arqueológico, com um valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico..."
in, Convenção para a Protecção do Património Cultural e Natural (1972) - Artigo 1º
No debate sobre o problema da identidade, a ideia e o conceito de património cultural tem constituido um lugar comum. A associação imediata que pode, e deve, ser feita entre estes dois conceitos é, na realidade, óbvia. Relacionando-se com o valor patrimonial, o conceito de identidade tem constituído um tema central no debate sobre a salvaguarda e preservação dos edifícios e sítios bem como, sobre todo e qualquer objecto classificado.
Tomando as palavras de Georges-Henry Rivière, o património cultural (histórico) assume-se como um espelho. Um espelho que reflecte a história, o passado, a cultura, as tradições e as memórias. Um espelho em cujo reflexo as populações reencontram a sua ancestralidade, onde se reveem e reencontram. Nesse sentido, o património cultural é uma expressão material da identidade dos povos.
Demonstrando também esta estreita relação entre o património, ou os objectos que se compreendem como tal, e o problema da identidade, vale a pena recorrer ao célebre paradoxo de Plutarco sobre o navio de Teseu, narrado na sua obra Vidas Paralelas - Teseu e Rómulo.
“...O navio em que Teseu fez a travessia com os jovens e em que regressou são e salvo era uma embarcação de trinta remos que os Atenienses conservaram até ao tempo de Demétrio de Falero. Retiravam o madeiramento envelhecido e substituíam-no por pranchas robustas, que ajustavam às outras, de tal modo que, para os filósofos, este navio representava um exemplo adequado à discussão sobre o “argumento do crescimento”, defendendo uns que o navio continuava a ser o mesmo e outros que já o não era...”
Identidade e património são pois dois concietos que se interligam dando lugar, nessa sua correlação, a duas ordens de questões. O património como expressão da identidade e o problema da salvaguarda do património como forma possível de questionar ou, eventualmente pôr em perigo, a identidade por ele expressa.
No âmbito da exploração e da investigação sobre os factores responsáveis pela construção da identidade arquitectónica, a análise e o estudo das matérias relacionadas com o património cultural, constitui uma necessidade natural. Não apenas pelas razões implícitas no próprio conceito de património cultural, e nas suas diferentes expressões materiais e imateriais, mas também pelo facto do estudo do património ser um aspecto determinante na valorização das diferenças e da diversidade cultural no actual quadro da globalização e dos efeitos emergentes daí resultantes.
(V.P. 2009)






